Campari: Não só ele é assim.

É admirável a criatividade dos nossos políticos. Um deputado estadual de São Paulo levou um transformista ao plenário da assembléia estadual para que fizesse uma performance, com direito a música e strip-tease. Segundo o idealizador do evento (deputado Carlos Giannazi do PSOL/SP) foi uma forma de "denunciar a perseguição e a violência a que estão expostas as pessoas de orientação sexual não heterossexual". Seguindo a mesma linha de raciocínio do deputado, poderíamos imaginar as situações inusitadas que aconteceriam dentro da assembléia se a pauta fosse o aborto ou a febre aftosa.
Diante do fato, o deputado Waldir Agnello (PTB) pediu a cassação do mandato de seu colega por quebra do decoro parlamentar, segundo seus argumentos "roupas mínimas - calcinha e sutiã - para uma mulher já seria inadequado (dentro da assembléia). Para um homem, continua sendo inadequado também".
Também acho inadequado, pois a dita "performance" em nada de útil acrescentou ao debate do assunto. Até dentro do "contexto artístico" como defendeu Giannazi, o show é de qualidade duvidosa. O fato só chama atenção para o despreparo dos políticos em tratar de questões polêmicas que deveria envolver seriedade e respeito aos discriminados e não expô-los em situação que oscila entre o cômico e o constrangedor. Dessa forma a discussão se concentra em temas secundários, se desviando totalmente do principal. No caso, a discriminação fica em segundo plano, cedendo espaço para se discutir se houve ou não quebra do decoro pelo deputado.
Chama a atenção no acontecido, a trajetória do deputado Giannazi. Eleito vereador em 2000 pelo PT, foi expulso do partido e ingressou no PSOL, conquistando por este partido o mandato de deputado estadual em 2006. Desde o início de sua carreira como parlamentar a educação foi sua principal bandeira, sendo que aos poucos foi incorporando a sua linha de atuação a defesa das minorias e dos movimentos sociais.
Ninguém melhor para ilustrar a situação do que a drag queen Salete Campari, nome artístico de Francisco de Sales Rodrigues, foi candidata a deputada estadual em 2006 e não conseguiu se eleger. Se tivesse sido eleita teria criado uma boa polêmica, pois afirmou que iria assumir a cadeira "montada" que no jargão drag quer dizer vestida de mulher, como em suas apresentações (haveria nesse caso quebra do decoro?). Fato curioso nessa história é que Salete era professor de matemática e trocou de profissão por "falta de aptidão e baixo salário", ou seja, se o deputado Giannazi tivesse trabalhado um pouco mais em prol da educação e da melhoria dos salários dos professores o mundo teria perdido um artista e ele um ativista de suas próprias causas!!


