sábado, 24 de novembro de 2007

Campari: Não só ele é assim.



É admirável a criatividade dos nossos políticos. Um deputado estadual de São Paulo levou um transformista ao plenário da assembléia estadual para que fizesse uma performance, com direito a música e strip-tease. Segundo o idealizador do evento (deputado Carlos Giannazi do PSOL/SP) foi uma forma de "denunciar a perseguição e a violência a que estão expostas as pessoas de orientação sexual não heterossexual". Seguindo a mesma linha de raciocínio do deputado, poderíamos imaginar as situações inusitadas que aconteceriam dentro da assembléia se a pauta fosse o aborto ou a febre aftosa.

Diante do fato, o deputado Waldir Agnello (PTB) pediu a cassação do mandato de seu colega por quebra do decoro parlamentar, segundo seus argumentos "roupas mínimas - calcinha e sutiã - para uma mulher já seria inadequado (dentro da assembléia). Para um homem, continua sendo inadequado também".

Também acho inadequado, pois a dita "performance" em nada de útil acrescentou ao debate do assunto. Até dentro do
"contexto artístico" como defendeu Giannazi, o show é de qualidade duvidosa. O fato só chama atenção para o despreparo dos políticos em tratar de questões polêmicas que deveria envolver seriedade e respeito aos discriminados e não expô-los em situação que oscila entre o cômico e o constrangedor. Dessa forma a discussão se concentra em temas secundários, se desviando totalmente do principal. No caso, a discriminação fica em segundo plano, cedendo espaço para se discutir se houve ou não quebra do decoro pelo deputado.

Chama a atenção no acontecido, a trajetória do deputado Giannazi. Eleito vereador em 2000 pelo PT, foi expulso do partido e ingressou no PSOL, conquistando por este partido o mandato de deputado estadual em 2006. Desde o início de sua carreira como parlamentar a educação foi sua principal bandeira, sendo que aos poucos foi incorporando a sua linha de atuação a defesa das minorias e dos movimentos sociais.

Ninguém melhor para ilustrar a situação do que a drag queen
Salete Campari, nome artístico de Francisco de Sales Rodrigues, foi candidata a deputada estadual em 2006 e não conseguiu se eleger. Se tivesse sido eleita teria criado uma boa polêmica, pois afirmou que iria assumir a cadeira "montada" que no jargão drag quer dizer vestida de mulher, como em suas apresentações (haveria nesse caso quebra do decoro?). Fato curioso nessa história é que Salete era professor de matemática e trocou de profissão por "falta de aptidão e baixo salário", ou seja, se o deputado Giannazi tivesse trabalhado um pouco mais em prol da educação e da melhoria dos salários dos professores o mundo teria perdido um artista e ele um ativista de suas próprias causas!!

domingo, 18 de novembro de 2007

São Francisco: O Injustiçado



A empresa Cisco,uma das gigantes na área da tecnologia, tem esse nome devido a San Francisco, cidade americana que fica em um dos extremos da ponte Golden Gate que é a inspiração para a logomarca da empresa.

Recentemente a Polícia Federal, através da Operação Persona, prendeu 40 pessoas acusadas de fraudes tributárias na ordem de R$ 1,5 bilhão. Entre os presos, executivos da Cisco. No avançar das investigações foi descoberta doação de R$ 500mil ao PT por uma distribuidora da mesma empresa. A suspeita é que a doação ocorreu em troca de benefício concedido a Cisco em licitação da Caixa Econômica Federal.

Talvez inspirados por São Francisco os executivos da empresa americana e o PT tenham desvirtuado o sentido da famosa oração do santo, onde se diz: "pois é dando que se recebe".

Outra frase da oração, "Onde houver discórdia, que eu leve a união" também serve para ilustrar o ocorrido. Quando saíram as primeiras notícias sobre a doação, o presidente do PT, Ricardo Berzoini
afirmou: "O PT não tem qualquer relação com essa empresa. Consultei membros da Executiva do partido e pedi um levantamento sobre doações. Todos afirmaram que não conhecem e não têm nenhuma relação com ninguém da empresa". Ou seja, a cúpula do partido se uniu em torno de uma versão que mais tarde seria negada por eles mesmos através do secretário nacional de Finanças e Planejamento.

Curiosidade: A cidade de San Francisco teve início com a construção de um presídio pelos espanhóis que levou o mesmo nome: Presídio de San Francisco. Ou seja, desde o início São Francisco de Assis, o santo, foi injustiçado. Ele não merecia ter seu nome envolvido em semelhantes situações.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Culpa é do Juiz



O torcedor de futebol é um ser fanático e obcecado. A derrota de seu time tem diversas causas, começando pela incompetência do técnico, passando pelas condições do campo e terminando com a desonestidade do juiz. A hipótese mais plausível: a de que seu time perdeu porquê o adversário seria melhor é inexistente na cabeça desses sofredores apaixonados.

Um torcedor baiano levou ao extremo sua inconformação e resolveu processar a CBF por Danos Morais pelo fato de seu time, o Bahia, ter sido rebaixado para a série "C" no campeonato de 2005. Na argumentação do torcedor seu time foi prejudicado pela máfia da arbitragem. Para quem não lembra, em 2005 foi quando estourou o escândalo de manipulação de resultados encabeçada pelo árbitro Edilson Pereira de Carvalho que envolveu também outros árbitros.

Pelo seu raciocínio, todo resultado de jogo que tenha sido apitado por um árbitro integrante da máfia é suspeito. Concordo em parte com o raciocínio. É preciso considerar outras variáveis. Nos 21 jogos que o Bahia disputou em 2005 só venceu 7 e foi derrotado em 10!. O campeão daquele ano, o Grêmio, disputou 33 jogos e só perdeu 6 vezes. Colocar a culpa apenas na arbitragem é forçar a barra.

O interessante também é o objetivo da ação: O torcedor quer uma indenização pelo dano moral de ter vivido o rebaixamente do seu time. O processo, por incrível que pareça já chegou a mais alta corte do país, o STF e como bem disse Juca Kfouri em seu blog: "Se imaginarmos a admissão da relevância e, ainda por cima, o julgamento favorável ao torcedor, estaremos diante de uma situação complicada. Porque a Fifa certamente reagirá e, aí sim, se poderá falar em ameaça à realização da Copa do Mundo no Brasil."

Existe uma frase atribuída a um antigo político baiano, Otávio Mangabeira, que resume bem a questão: "Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente"

domingo, 11 de novembro de 2007

Náuseas, Dor Profunda e Lição de Democracia


A julgar pelas palavras do presidente de Cuba, Fidel Castro, o Brasil está no rumo certo para se consolidar como democracia e se distanciar do populismo, pois não foi elogiado pelo moribundo ditador cubano. Fidel fez pronunciamento elogiando e criticando a postura de alguns líderes latino-americanos que participaram no final de semana da Cúpula Ibero-Americana, em Santiago no Chile.

Sem citar nomes dos criticados e falando em nome do fantasma de Che Guevara, Fidel disse que Che "escutaria com dor profunda os discursos pronunciados por posições tradicionais de esquerda na cúpula". Diretamente Fidel criticou apenas o presidente de El Salvador que em seu discurso defendeu os tratados de livre-comércio assinados por seu país com os Estados Unidos. Segundo Fidel, o discurso era de "provocar náuseas".

Elogios diretos foram para Daniel Ortega da Nicarágua, Evo Morales da Bolívia e logicamente para seu porta-voz e afilhado político Hugo Chávez da Venezuela. Para Chávez, Fidel dedicou palavras de apoio para minimizar o vexame que o presidente venezuelano passou ao ouvir do Rei da Espanha um sonoro "Por quê você não se cala?". Chávez criticou o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar, quando o atual primeiro-ministro, José Luis Rodríguez Zapatero lhe deu uma lição de democracia. Zapatero ensinava a Chávez que "...em uma mesa em que há governos democráticos, tem-se como princípio essencial o respeito. Pode-se estar nos extremos opostos de uma posição ideológica, e não serei eu a estar próximo das idéias de Aznar, mas o ex-presidente Aznar foi eleito pelos espanhóis e exijo este respeito". No momento em que Zapatero falava e Chávez tentava interrompê-lo, o Rei espanhol aplicou-lhe a reprimenda.

Resumindo, a Cúpula, independente dos resultados alcançados (quase sempre nenhum) foi um sucesso. Chávez foi repreendido publicamente; O Brasil não foi incluído nos elogios de Fidel Castro; e houveram discursos que causariam "náuseas" e "dor profunda" em Fidel e Guevara.
Acende-se uma luz no fim do túnel latino-americano!!