Chico Buarque, Anistia e a Moral Relativizada.
A recente polêmica acesa pelo Ministro da Justiça Tarso Genro sobre a "responsabilização de crimes cometidos durante a ditadura" se mostra oportunista e contraditória. Oportunista por quê aberta por um governo sem a isenção necessária para fazê-lo, uma vez que está dominado por ex-integrantes de grupos que participaram da luta armada contra os militares e por terem perdido apelam ao revanchismo tardio. Contraditória pois essas mesmas pessoas que buscam a "responsabilização"(eufemismo para "punição"), cometeram atos criminosos e hediondos também naquela época, como sequestros, assaltos e assassinatos.
A defesa da dignidade e da liberdade humana tem que existir sem condicionantes e sem relativismos. No quesito prática de crimes, militares e esquerdistas revolucionários são iguais, tem suas contribuições a dar, o que muda são suas motivações. Os primeiros agiram para manter o poder e sufocar a resistência, esses últimos também não tinham uma intenção mais nobre. Lutavam para derrubar uma ditadura "de direita" para implantar no Brasil uma ditadura "de esquerda" nos moldes da que foi instalada em Cuba e que serviu de paradigma para incentivar a resistência armada e a formação de guerrilhas naquela época.
Aliás, os atuais integrantes do governo e da esquerda brasileira que patrocinam a revisão da Anistia são admiradores do regime cubano, regime esse que já matou dezenas de milhares de opositores. Ou seja, Fidel Castro está no mesmo balaio dos militares brasileiros da época da ditadura e deveria receber os mesmos adjetivos, como torturador, assassino e criminoso. Mas não o recebe por quê a moral dos que gritam em defesa da revisão da anistia é uma moral relativizada. Eles podem, os outros não. A defesa da ideologia de esquerda é maior do que a defesa da dignidade do ser humano. Existe opressão boa e opressão ruim. Os mortos pela ditadura militar brasileira são heróis e os mortos pela ditadura cubana são apenas opositores inconvenientes...
O cantor e compositor Chico Buarque é um emblema dessa contradição. Em 1970 quando compôs a música "Apesar de Você" que viria a ser o hino do movimento contra a ditadura militar no Brasil, Fidel Castro já tinha aniquilado totalmente os grupos armados que surgiram em Cuba contra o "governo revolucionário" que se instalou naquele país. O que desejavam e aspiravam os que lutaram contra Fidel? Que músicas cantaram? Não queriam um país melhor? Um outro dia, apesar da existência de um repressor?
Chico Buarque hoje tem uma foto sua na parede do "museu da revolução" em Havana e é ícone da luta contra a ditadura no Brasil. Ninguém melhor para ilustrar a moral de ocasião que alimenta esse debate.
Sou a favor da revisão da Lei da Anistia, mas que seja sob o mesmo lema utilizado quando da sua promulgação: "Ampla, Geral e Irrestrita". Que todos os que cometeram atos criminosos naquela época sejam responsabilizados e punidos, independente de serem militares ou civis e que estivessem contra ou a favor do governo. Crime é crime. Ou não???

